Uma observação sobre campanha política, barulho e esse nosso talento nacional para transformar tudo em palanque
Tem dias em que eu olho para a política brasileira, e tenho a sensação de que ela não está exatamente acontecendo. Ela está sendo encenada. Tipo aquele teatrinho pra ver se convence, sabe?
E eu confesso que isso me cansa um pouco.
Porque, olhando de fora — e acho que muita gente olha assim também — o Brasil está cada vez mais com cara de país que discute sem parar e resolve em câmera lenta.
A política virou esse lugar meio barulhento em que quase todo mundo fala em nome da democracia, da liberdade, do povo, da estabilidade, da soberania, da justiça, da Constituição e, se der tempo, até do bom senso.
Sim, bom senso. Porque, na verdade, a corrida por vencer a eleição acaba se tornando um troca troca de acusações, ofensas, podres e fraudes. A preocupação é mostrar por quê o outro é ruim. E só. Cadê projeto? Cadê aquelas veljas promessas de palanque? Só vejo dancinha, apelação e pastelão.
Vamos trabalhar, minha gente?
O problema é que, no meio desse festival de grandes palavras que é uma campanha política, às vezes falta justamente o pequeno milagre da vida pública: alguém sentar e fazer o trabalho chato.
O governo, por exemplo, tem tentado vender uma ideia de normalidade, reconstrução, serenidade, rumo. Em alguns momentos, consegue. A reação de Lula a pressões externas ajudou a dar a ele um fôlego político que vinha faltando, especialmente ao ocupar um discurso de soberania nacional que costuma render mais à direita.
Do outro lado, a oposição também não tem colaborado muito para melhorar o clima. E aqui eu digo isso com toda tranquilidade do mundo: fazer oposição é necessário.
Fiscalizar, bater, tensionar, apontar incoerência, expor erro — tudo isso é parte do jogo e faz bem à democracia. O problema começa quando a crítica deixa de ser ferramenta e vira estilo de vida. Vira quase uma seita.
Porque existe uma parte da oposição brasileira que parece ter se acostumado tanto com o papel de indignação permanente que já não precisa mais propor muita coisa.
Basta manter o ambiente aceso. Basta fazer com que tudo pareça colapso, escândalo definitivo, vergonha histórica ou prova cabal de que o país acabou, agora vai, sem volta.
E eu nem acho que seja só estratégia. O fanatismo por idolatria de políticos deixa as pessoas doentes e cegas.
Fanatismo e ídolo político
Às vezes me dá a impressão de que certos grupos nem querem convencer ninguém; querem só manter os seus simpatizantes eletricamente irritados e na defensiva. E o “papagaio mode on” deixa o efeito manada mais ridículo e absurdo.
E talvez esse seja um dos retratos mais honestos do momento: o governo tenta conduzir, a oposição quer mandar junto, e o resto do país assiste a isso como quem caiu no meio de uma série política já na sexta temporada, sem paciência para voltar ao começo e sem coragem de largar. Sim, falta estudo e conhecimento da história do Brasil para a grande maioria dos papagaios de plantão.
A essa altura, todo mundo quer também disputar protagonismo e tentar aparecer no meio da campanha política.
E aí, claro, entra a internet, que nunca perde a chance de piorar uma situação já confusa. A internet brasileira pegou a nossa bagunça política e fez o que ela faz de melhor: acelerou, irritou, dramatizou e monetizou.
Hoje, antes de um fato virar reflexão, ele já virou recorte. Antes de uma fala virar debate, ela já virou torcida. Antes de alguém checar qualquer coisa, já existe um vídeo explicando tudo com convicção absoluta e zero vergonha. Segundo pesquisa, 43% dos brasileiros associam fake news à política. Não chega a ser um susto; é mais um retrato.
É o que mais vejo, e é o que mais me dá aquela gastura de agonia da vergonha alheia.
E talvez aqui esteja uma parte meio incômoda dessa história toda: se eu já sei que o meu lado está sempre certo e o outro está sempre errado, eu não preciso pensar muito. Eu só preciso repetir. A polarização organiza o mundo em dois blocos muito práticos: os lúcidos e os absurdos, os bons e os cínicos, os conscientes e os vendidos. É um modelo mental eficiente, econômico e péssimo. Péssimo para todo o país.
Jogar a real, niguém parece querer…
E a realidade insiste em lembrar que política não é só estética e nem campeonato. Política é inflação, emprego, salário, transporte, segurança, custo de vida, confiança, serviço público, limite institucional, vida concreta. E vida concreta tem o defeito grave de não caber bem em slogan de campanha.
No fundo, é isso que mais me incomoda na atual situação política do Brasil: não o conflito em si, porque conflito faz parte. Democracia sem conflito é propaganda de margarina: família sorridente e feliz o tempo todo.
O que me incomoda é esse vício em querer mostrar orgulho em defender um partido ou um político. Essa necessidade de transformar tudo em recado, tudo em cena, tudo em teste de lealdade.
Enquanto isso, o Brasil real segue no canto, meio impaciente, esperando alguém lembrar que ele existe, numa eterna campanha política.
E talvez a crítica mais honesta que eu consiga fazer hoje seja essa: não me assusta que os lados briguem. O que assusta um pouco é o quanto eles parecem gostar da briga, e esqueceram do real motivo de estarem disputando uma vaguinha nessa humilde nação soberana. Porque, do jeito que estamos, todo mundo quer vencer a encenação do jeito mais tosco.
E se você tiver bom senso e cultura na cabeça, sabe onde está o lado mais tosco e bizarro da história.
E quase ninguém parece muito animado para encarar a parte chata de governar um país de verdade.