Estaremos mortos na próxima década? Foi basicamente isso que um cara que passou anos treinando modelo de inteligência artificial na OpenAI e depois na Anthropic disse, ao pedir demissão publicamente.
Jacob Coxon, esse é o nome dele, não é um youtuber de teoria da conspiração. É gente de dentro. E o pior: ele não ficou sozinho no discurso.
Evan Hubinger, que lidera a área de segurança da Anthropic, concordou publicamente e foi além: disse achar que a chance de a IA acabar com a humanidade é maior que 10% justamente na próxima década.
Samuel Marks, outro pesquisador de segurança da mesma empresa, também acha o cenário de extinção plausível.
Além disso, Geoffrey Hinton, ganhador do Nobel e uma espécie de padrinho da IA moderna, deu uma entrevista à BBC dizendo que 10% de chance disso acontecer é uma estimativa razoável.
Dez por cento. Pare um segundo e pensa nisso. Você entraria num avião que tem 10% de chance de cair?
Por outro lado, tem gente puxando o freio de mão. Pedro Steibel, especialista brasileiro em IA, disse numa entrevista que essa história de superinteligência dominando tudo é mais coisa do Vale do Silício do que ciência. Ele compara com o tear na Revolução Industrial: mudou tudo, reconfigurou cidades, acabou com profissões inteiras. Mas o mundo não acabou. Ele virou outra coisa.
Já vivemos esse filme antes, só que sem streaming
Toda geração acha que a tecnologia da vez vai destruir alguma parte essencial de ser humano. Sócrates, segundo o que Platão registrou, já desconfiava da escrita, achava que ela ia acabar com a memória das pessoas. A ironia é que só sabemos disso porque alguém escreveu, meio paradoxo…
Séculos depois foi a vez da prensa de Gutenberg levar a culpa. Informação demais circulando, gente comum lendo o que só padre e nobre liam antes, autoridade tradicional ameaçada. Não destruiu a civilização. Reorganizou quem tinha acesso ao conhecimento, e isso incomodou muita gente que vivia bem com o modelo antigo.
Só que nem todo susto histórico terminou em “relaxa que se resolve sozinho”.
Na Guerra Fria, o medo de aniquilação nuclear também era calculado por físicos. Aquilo não virou catástrofe porque um bocado de gente trabalhou pesado, tratado atrás de tratado, pra impedir que virasse. A adaptação ali não foi automática. Foi construída com risco genuíno em cima da mesa o tempo inteiro.
A IA parece estar em algum lugar entre esses dois tipos de história.
Tem gente treinando o próprio modelo, de dentro da empresa, que acha que está mais perto de uma bomba. A honestidade aqui é admitir que ninguém sabe qual é a dessa vez.
E é exatamente por isso que bom senso individual deixa de ser luxo e vira o mínimo, enquanto os grandes debatem, calculam probabilidade e discordam entre si lá em cima.
A gente tem cérebro. Ele pensa, sente, avalia, hesita, erra, aprende. E está sendo terceirizado numa velocidade assustadora, silenciosa, quase gostosa de aceitar. Jogue a primeira pedra no coleguinha se eu estiver mentindo. (brinks)
Mas estaremos mortos na próxima década mesmo?
Provavelmente não do jeito que você está imaginando, com robô perseguindo gente pela rua, soltando lasers pelos olhos e braços, tipo exterminador do futuro.
O risco real é mais chato e mais provável: você esquecer como se decide as coisas da SUA VIDA HUMANA.
Pensa na última vez que você teve uma dúvida boba do dia a dia. Tipo há alguns minutos atrás rs. Que roupa usar pra uma reunião? Como responder um e-mail estranho? Comprar ou não aquele produto? Qual caminho pegar pro trabalho? O que fazer agora, meu Deus, quer dizer , chatgpt querido? Antes, você resolvia isso sozinho, mesmo que mal, mesmo que errando, sei lá.
Hoje, você abre o chat e pergunta.
Não tem nada de errado em perguntar.
O problema é quando perguntar vira o único jeito que você conhece de pensar. Tipo, você não quer mais pesquisar nada, pensar nada, decidir por conta própria. (acesse a roleta de decisões, uma forma divertida de tomar decisões por você, rs)
Bom senso não é um algoritmo. Ninguém patenteou ainda. E ele só existe enquanto for exercitado, do mesmo jeito que um músculo. Se você delega toda decisão pequena pra uma IA, seu cérebro vai ficando bom em uma coisa só: copiar e colar a resposta.
Atrofia. Diminui. Fica mongolóide, bobão e meio dããããr.
Uma lista de “bom senso” pra quem só usa IA no dia a dia
Você não precisa saber programar pra sentir esse efeito. A maioria de quem usa IA hoje é exatamente assim: gente que consulta o chat pra resolver dúvida de rotina, escrever uma mensagem, decidir uma receita, resumir uma notícia.
Se é o seu caso, algumas coisas pra manter o cérebro em forma, mesmo morando dentro do chat:
- Antes de perguntar pra IA, tente formar sua própria opinião primeiro, mesmo que errada. Depois compare. Tipo: eu acho que é isso, mas também penso assado, o que seria melhor?
- Uma vez por semana, resolva um problema chato sem consultar nada. Um cálculo, uma decisão, um planejamento. Esquece a IA. Pensa, meu caro leitor!
- Leia um texto inteiro sem pedir resumo. Deixe seu cérebro sentir o cansaço de acompanhar um raciocínio longo. Vai dar uma baita preguiça, mas vale a pena.
- Escreva algo seu, sem revisão de IA, pelo menos uma vez por semana. Pode ser torto. É seu. Vai na fé!
- Quando a IA te der uma resposta, pergunte por que ela chegou naquilo. Não aceite a conclusão pronta como verdade absoluta. Não diga sim senhor, porque você tá dando combustível pra extinção… é…
- Tome uma decisão pequena por impulso e intuição de vez em quando. Escolher o restaurante, o filme, o presente. Sem pesquisa, sem comparação de preço, sem opinião de terceiros.
Nada disso é sobre virar um eremita digital nem odiar tecnologia.
Não tô falando pra você largar essa vida, pra depois me chamar de hipócrita quando eu tiver consultando a IA pra saber o que dizer em alguma situção.
É sobre lembrar que você tem um cérebro pago e funcional, e que ele atrofia como qualquer coisa que para de ser usada. Se quiser entender melhor por que ele resiste tanto a mudar de hábito, tem um texto aqui no blog sobre o assunto que fala disso a partir da neurociência.
E pra quem usa IA pra trabalhar e ganhar dinheiro?
Aqui a conversa muda um pouco. Se você usa IA pra produzir, vender, criar conteúdo ou automatizar parte do seu trabalho, o risco não é só cognitivo. É estratégico. Presta atenção aqui:
Quem terceiriza pensamento demais também terceiriza diferencial competitivo. Todo mundo tem acesso ao mesmo chat.
O que ninguém mais tem é a sua experiência, seu julgamento, sua rede, sua capacidade de perceber o que a máquina não percebe.
Algumas práticas pra quem transforma IA em renda sem virar refém dela:
- Use a IA pra acelerar a execução, não pra substituir a estratégia. A decisão de “o que fazer” continua sua.
- Reveja tudo que sai automatizado antes de publicar ou entregar. IA erra, alucina, generaliza. Seu olho crítico é o produto final, não ela.
- Documente seus próprios processos e critérios de decisão. Isso vira know how que nenhuma IA replica, porque é seu jeito de pensar.
- Diversifique ferramenta e fonte de informação. Depender de uma única IA pra tudo é o mesmo erro de depender de um único cliente.
- Guarde tempo pra pensar sem tela. As melhores ideias de negócio raramente nascem dentro de um prompt.
- Cobre pelo seu julgamento, não só pela sua velocidade. Qualquer um roda um prompt. Poucos sabem o que fazer com o resultado.
Aposta em bom senso
Eu não sei se estaremos mortos na próxima década. Ninguém sabe, nem quem trabalhou lá dentro, nem quem ganhou Nobel.
Por isso, enquanto uns discutem probabilidade de extinção, a gente continua tendo escolha sobre uma coisa bem mais simples: usar a cabeça ou entregar ela de bandeja. Ou tentar unir o melhor dos dois mundos haha.
Então fica a pergunta: qual foi a última decisão que você tomou sozinho essa semana, sem abrir chat nenhum? Se você precisar pensar muito pra responder, talvez o alerta que importa não seja o da próxima década.
