Eu sou uma ávida entusiasta e fã de filmes de terror. Mas qualquer terror mesmo. Pode ser do tipo Slasher, de espírito, de serial killer, de qualquer coisa nesse gênero.
Quem assiste também sabe: que raios a pessoa pensa quando vai investigar um barulho no porão de uma casa da qual acabou de se mudar, no meio da noite?
Quer morrer né, só pode!
Se eu estiver em um filme de terror e alguém disser “vamos ver o que foi”, eu já sei que essa pessoa vai morrer.
Depois de assistir a quantidade suficiente de filmes de terror, você começa a perceber que o monstro nem sempre é o maior problema. Muitas vezes, o verdadeiro perigo é a pessoa que olha para uma floresta escura e pensa:
“Será que tem alguém lá?”
Tem.
E você não vai gostar de descobrir quem.
Filme de terror tem algumas regras não escritas. Você não entra no porão. Não vai sozinho para uma floresta no meio da noite. Não abre uma porta que acabou de bater sozinha. Não diz “já volto” antes de desaparecer misteriosamente.
E, principalmente, você não deve ser a pessoa que fala:
“Gente, calma. Deve ser alguma coisa normal.”
Não é.
O curioso é que, mesmo depois de décadas de filmes ensinando exatamente o que não fazer, os personagens continuam cometendo os mesmos erros.
E eu fico pensando que, se um dia eu fosse parar dentro de um filme de terror, minha maior preocupação não seria encontrar o monstro.
Seria evitar as pessoas que querem encontrá-lo. Porque, sério mesmo, os mais medrosos morrem primeiro, essa você já sabe.
Existem alguns tipos de personagem que parecem ter sido colocados na história exclusivamente para reduzir a população.
Aqui estão cinco deles. E se você é um desses, não é meu amigo. Passa longe. Vai com Deus!
1. A pessoa que diz “vamos ver o que foi”
Essa talvez seja a pior de todas.
A pessoa está tranquilamente em casa quando escuta um barulho.
TUM.
Todo mundo para.
Silêncio.
Outro barulho.
TUM.
Alguém pergunta:
— O que foi isso?
E aparece o personagem que vai destruir qualquer possibilidade de sobrevivência:
— Vamos ver o que foi.
Não.
Não vamos.
Pode ser qualquer coisa.
Um gato.
Um cano.
Uma janela.
Um objeto caindo.
Um ladrão.
Um fantasma.
Um demônio.
Uma entidade interdimensional que está esperando exatamente alguém dizer “vamos ver o que foi”.
Eu não preciso saber.
Essa mania que personagens de terror têm de investigar qualquer barulho é uma coisa que eu não consigo entender.
Eu tenho uma filosofia simples:
Se eu não sei o que fez o barulho, não vou voluntariamente caminhar na direção dele. A regra é se esconder ou fugir.
E existe uma diferença enorme entre coragem e curiosidade.
Coragem é enfrentar uma situação perigosa porque você precisa.
Curiosidade é entrar no porão porque ouviu três batidas. Nuss, que coráji!
Eu prefiro continuar covarde e viva. Obrigada de nada.
2. A pessoa que se separa do grupo
Essa é clássica.
O grupo inteiro está junto.
Todo mundo sabe que existe alguma coisa estranha acontecendo.
A casa está sem energia.
Tem uma presença misteriosa.
Alguém desapareceu.
As portas estão batendo.
Talvez tenham encontrado um cadáver.
E alguém solta:
— Vocês ficam aqui. Eu vou procurar uma lanterna.
Oi?
A lanterna pode esperar. A humanidade sobreviveu milhares de anos sem lanternas.
E outra coisa: por que sempre alguém precisa ir até outro cômodo?
Não tem uma lanterna no celular?
Ah, não tem celular porque estamos em 1987?
Então acende uma vela.
Mas não vá sozinho para o porão, pro andar de cima, pra qualquer canto.
O personagem que se separa do grupo geralmente fala alguma coisa como:
— Eu volto rapidinho.
“Já volto” em filme de terror significa praticamente:
“Foi um prazer conhecer vocês.”
E o pior é que, quando alguém desaparece, o grupo ainda faz isso novamente.
— Onde está o João?
— Ele foi procurar a Ana.
— E onde está a Ana?
— Foi procurar o João.
Pronto.
Agora vocês estão todos espalhados pela casa.
Parabéns.
O assassino nem precisa trabalhar.
Vocês estão fazendo o serviço por ele.
3. A pessoa que entra no lugar onde ninguém deveria entrar
Essa pessoa simplesmente não respeita sinais.
Tem uma floresta escura?
Vai entrar.
É noite?
Melhor ainda.
Tem uma placa dizendo “ACESSO PROIBIDO”?
Interessante.
Tem uma casa abandonada no meio do nada?
Vamos conhecer.
Existe uma escada descendo para um porão que parece não receber uma visita humana há cinquenta anos?
Ele desce.
Mas gente…. Eu fico impressionada com a confiança.
Porque, na vida real, basta uma rua mal iluminada para eu começar a prestar atenção em tudo ao meu redor. No filme de terror, o personagem vê uma floresta completamente escura e pensa:
— Acho que vou dar uma volta. Não importa o motivo.
À noite.
Sozinho.
Sem avisar ninguém.
Provavelmente usando uma camiseta branca que ficará completamente coberta de sangue cinco minutos depois.
Não.
Se eu estiver numa floresta à noite e ouvir alguma coisa entre as árvores, vou considerar aquilo um sinal muito claro de que minha visita acabou.
E nem precisa ser um monstro.
Pode ser um javali.
Pode ser uma cobra.
Pode ser uma pessoa.
Pode ser uma árvore caindo.
Pode ser qualquer coisa.
Eu não preciso descobrir. Só corro com as dez pernas que penso ter na hora.
E existe uma regra que deveria ser obrigatória em todo filme de terror:
Se você não consegue enxergar o que está à sua frente, não entre.
Isso vale para floresta, porão, túnel, prédio abandonado, caverna e qualquer outro lugar que pareça ter sido escolhido pelo diretor especificamente para esconder alguma coisa.
E tem mais.
Se seus amigos disserem:
— Não entra aí.
Não é um desafio.
É um conselho.
Aceite.
A pessoa que entra mesmo assim normalmente é a primeira a descobrir o que existe lá dentro.
Por alguns segundos. Porque, como já sabemos, os medrosos, babacas e brincalhões não chegam ao final do filme, praticamente.
4. A pessoa que acha que consegue conversar com o monstro
Essa é uma mistura de coragem com uma confiança que eu sinceramente não tenho.
A pessoa encontra uma criatura sobrenatural.
A criatura provavelmente está coberta de sangue, tem olhos estranhos, não parece exatamente humana e acabou de atravessar uma parede.
E o personagem resolve conversar.
— Quem é você?
Eu já teria ido embora.
Mas ele continua:
— O que você quer?
Por quê?
O que você espera que aconteça?
Que o monstro responda:
“Na verdade, eu só queria conversar porque estou passando por uma fase difícil.”
Talvez existam histórias em que a criatura tenha uma explicação.
Mas, naquele momento, eu não quero ouvir.
Primeiro eu sobrevivo.
E tem uma regra ainda mais importante:
não tente ser psicólogo de uma entidade sobrenatural.
Você não sabe nem se ela entende português. haha
E nem sabe se ela é uma criatura, uma maldição, um espírito ou alguma coisa que não deveria existir.
Mas lá está o personagem, tentando entender a criatura, querendo espiar o demônio.
Tem gente que gosta de sentir medo, viu.
5. A pessoa que volta para dentro da casa
Essa é a campeã.
O personagem consegue sair.
Finalmente.
Está do lado de fora.
A casa está atrás dele.
O carro está na frente.
Existe uma estrada.
Existe uma possibilidade de fuga.
E então ele percebe que alguém ficou lá dentro.
Eu sei que isso parece uma situação moralmente complicada.
Mas, dependendo do que aconteceu até aquele momento, talvez seja necessário aceitar algumas perdas.
Porque existe uma diferença entre:
“Meu amigo está lá dentro e eu vou tentar ajudá-lo.”
e
“Meu amigo está lá dentro, a casa está possuída, três pessoas já morreram e eu vou voltar porque não consigo deixá-lo.”
A segunda opção é emocionalmente bonita.
Também é uma excelente maneira de virar o próximo corpo encontrado.
E geralmente o personagem nem sabe exatamente onde a pessoa está.
Ele simplesmente entra.
— Ana!
— Ana!
— Ana!
Nada.
Então vai para o segundo andar.
Porque, aparentemente, quando você entra novamente numa casa assombrada, subir escadas é uma boa decisão.
Eu teria ido embora.
Talvez depois eu me sentisse culpada.
Talvez passasse anos pensando:
“Será que eu deveria ter voltado?”
Mas estaria pensando isso em segurança e viva. Egoísta? Sei lá. Na hora você não sabe se tem princípios e valores, ou se eles se foram de medo também.
O problema é que eu provavelmente também faria alguma dessas coisas
Agora vem a parte inconveniente.
Porque é muito fácil ficar julgando os personagens de filmes de terror sentado no sofá, com comida na mesa e sabendo que aquilo é ficção.
Na vida real, talvez eu também cometesse alguns desses erros.
É fácil falar:
“Eu jamais entraria naquela casa.”
Até você imaginar que seu cachorro está lá dentro, ou que alguém da sua família ficou preso, ou que você precisa encontrar uma pessoa, ou que existe alguma coisa importante que não pode ser deixada para trás.
O medo também não funciona de maneira muito racional.
E talvez seja justamente isso que torne os filmes de terror interessantes.
A maioria das pessoas não toma decisões ruins porque é burra.
Às vezes toma decisões ruins porque está assustada.
Ou desesperada, ou tentando proteger alguém.
Ou simplesmente porque não consegue acreditar no que está acontecendo.
Imagine alguém te dizendo:
“Tem um espírito assassino na nossa casa.”
Você provavelmente responderia:
“Dãããããr…. Claro que não tem.”
Porque aceitar que aquilo é verdade significa aceitar que o mundo deixou de funcionar da maneira que você conhecia.
Então talvez o personagem passe os primeiros minutos tentando encontrar uma explicação lógica.
O barulho era o vento.
A sombra era um objeto.
A pessoa desaparecida saiu sem avisar.
A porta abriu porque estava mal fechada.
Entendeu? Explicações lógicas e conhecidas. Nada abstrato.
Até que todas essas explicações acabam.
E aí já é tarde.
Minha estratégia seria muito menos cinematográfica
Se eu estivesse em um filme de terror, eu gostaria de ser a pessoa mais desinteressante possível.
Ouviria um barulho?
Não investigaria.
Alguém diria que viu alguma coisa?
Eu acreditaria na pessoa.
A casa pareceria estranha?
Eu iria embora.
Alguém dissesse que aquela casa está abandonada há 40 anos?
Responderia:
“Ótimo. Deixa ela aí por mais 40 anos quietinha.”
Se encontrasse uma porta estranha no porão?
Continuaria sem saber o que tem atrás dela. Ou só entraria com uma galera bem armada.
E dormiria muito bem com isso.
Porque existe uma coisa que aprendi observando filmes de terror:
você não precisa descobrir tudo.
Essa talvez seja a principal regra.
Nem todo mistério precisa ser resolvido por você, nem todo barulho precisa ser investigado, nem todo lugar abandonado precisa ser explorado.
E, principalmente, se alguém disser:
“Não entre naquela sala.”
Talvez, pela primeira vez na história do cinema de terror, alguém simplesmente responda:
“Tá bom.”
Fim do filme.
Todo mundo vivo.
Créditos.
Eu assistiria. Mas seria sem graça.
Porque a graça dos filmes de terror é essa: deixar a gente com medo, indigando, reagindo e interagindo. Fazendo tudo ao contrário do que se faz normalmente.
Por isso que amo filmes de terror.
E você? Passa longe? OU vibra a cada filme? Vale séries também, só que a indignação fica mais longa hehe.
