Turista Brasileiro no Exterior: Nem todo mundo sabe visitar

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Tem uma coisa que vem me incomodando faz tempo, e quanto mais eu vejo vídeo de viagem na internet, mais ela me irrita: existe um tipo de turista brasileiro que sai do país, desembarca em outro lugar do mundo e age como se tivesse comprado não só a passagem, mas também o direito de ignorar contexto, regra, costume, silêncio, limite e bom senso.

E eu preciso dizer com cuidado o que quero dizer aqui, porque não estou falando “dos brasileiros” como bloco uniforme, essa entidade mística que vai de Manaus a Porto Alegre com o mesmo grau de noção social. Ou seja, não generalizando.

Estou falando de um tipo. Um perfil. Uma figura muito específica que anda se multiplicando com milhas, parcelamento e câmera frontal.

O problema não é viajar. Ainda bem que mais gente viaja.

O turismo brasileiro ainda é, para muita gente, uma conquista recente. Há duas gerações, viajar para fora do Brasil era privilégio de pouquíssimos.

A expansão do acesso ao passaporte, ao crédito, às milhas, trouxe para o mundo pessoas que nunca tiveram a chance de aprender os códigos de uma viagem internacional — não por descaso, mas por ausência de oportunidade.

Circular pelo mundo é uma oportunidade maravilhosa.

O desastre começa quando a pessoa confunde poder de compra com licença cultural. 

Quer causar, meu bem?

A pessoa junta dinheiro, tira foto do passaporte, faz story no aeroporto, escreve “partiu Europa” ou “finalmente Cancún” ou “mereço”, e em algum momento do trajeto conclui que está indo para um parque temático montado para o entretenimento dela.

Chega no país dos outros querendo festa sem fim, barulho sem freio, vídeo para causar, deboche com o idioma local, impaciência com regra, e um ar muito particular de quem acha que respeito é opcional quando o hotel já foi pago. Tem dinheiro, tem tudo, sabe?

O que mais me chama atenção no turista brasileiro nem é a falta de sofisticação. Sofisticação, sinceramente, eu nem cobro. Nem todo mundo precisa saber harmonizar vinho, entender arquitetura gótica ou comentar museu como se tivesse nascido em Paris. Nem de longe isso é necessário.

O que incomoda é a ausência de delicadeza e bom senso. A falta de curiosidade. A recusa em perceber que você entrou na casa de outra pessoa e, portanto, talvez não seja a melhor ideia agir como se a rua inteira fosse extensão do seu território.

E o pior é que isso não acontece no vácuo.

Por que viajas, ó, brasileiro?

A própria lógica da viagem mudou.

A BBC News Brasil observou que, nas redes sociais, experiências de viagem viraram uma espécie de “moeda social”, uma evidência de status. Em outras palavras: muita gente já não viaja só para viver alguma coisa, mas para provar alguma coisa. A viagem deixa de ser encontro e vira vitrine. E, quando a vitrine vira prioridade, o lugar real começa a atrapalhar.

É aí que nasce o turista performático: aquele que não quer conhecer, quer render. Não quer entender, quer gravar. Não quer nada além de visualizações.

Se tiver uma regra local, ele testa. Costume diferente? Ele ironiza. Se tem silêncio, ele aumenta o volume. Se tiver limite, ele chama de frescura.

É um tipo de pobreza curiosa: a pessoa tem dinheiro para cruzar o oceano, mas não tem inteligência emocional para encarar uma diferença, sem se comportar como se estivesse na sua casa lotada de amigos.

E não, isso não é um problema exclusivamente brasileiro.

De olho nas “vizu”

A própria BBC lembra que o mau comportamento de turistas é antigo e global; o que mudou foi a visibilidade.

Hoje, com redes sociais, muita gente compete por curtidas e visualizações justamente com ações mais absurdas e desrespeitosas. O turismo ruim sempre existiu; agora ele vem editado em 9:16, com legenda engraçadinha e trilha animada. 

O g1, em reportagem sobre turistas fazendo coisas absurdas pelo mundo, reuniu casos de vandalismo, nudez em locais sagrados e desrespeito a monumentos, mostrando que há uma ação tóxica de que “já que eu vim até aqui, posso tudo”. 

Só que, quando eu penso em alguns brasileiros no exterior, sinto que há um ingrediente extra: a vontade de demonstrar vitória e levantar troféu.

Não basta estar em outro país; é preciso performar superioridade, liberdade, excesso. Tem que mostrar que esteve ali. Tem que deixar rastros.

Como se a prova definitiva de “ascensão”subi na vida” fosse fazer no estrangeiro aquilo que, no fundo, a civilidade local tenta justamente impedir.

A pessoa chega em cidades que funcionam em outro ritmo e acha que o charme dela está em bagunçar esse ritmo. Confunde espontaneidade com invasão, alegria com descontrole, autenticidade com falta de educação — um erro bem comum, aliás, entre gente que acha normal ser diferentão no país dos outros.

Vai, turista brasileiro. Viaje!

O brasileiro quando está bem — quando está curioso, aberto, com aquela simpatia que é genuinamente nossa — é um dos melhores companheiros de viagem que existe. É caloroso, adaptável, bem-humorado diante do imprevisível.

O desafio é que essa versão de nós mesmos precisa aparecer lá fora também.

E me incomoda especialmente quando isso vem embalado como “ai, mas brasileiro é assim mesmo”. Não. Há uma diferença enorme entre ser gente civilizada e ser sem noção. Entre ser alegre e ser inconveniente. Entre ocupar espaço e atropelar o espaço dos outros.

A cultura brasileira tem muitas qualidades reais — afeto, improviso, hospitalidade, calor humano — e nenhuma delas exige desrespeitar regra de museu, falar alto em lugar solene, beber onde é proibido, zombar de hábito local ou gravar vídeo constrangendo trabalhador, morador ou outro turista.

O Que Fica

No fundo, acho que o que mais me constrange nesse tipo de turista não é ele “pegar mal para o Brasil” — embora, sim, pegue. Principalmente para os brasileiros que residem no país da tal “visita”.

É a pequenez da atitude. A incapacidade de entender que viajar deveria nos deixar um pouco mais humildes. Você sai do seu lugar, entra em outro idioma, outra lógica, outra história, outro mundo. O mínimo que se espera de alguém nessa posição é alguma disposição para observar e absorver.

Viajar não devia ser sobre chegar causando. Devia ser, pelo menos em parte, sobre perceber que o mundo não foi montado para sua conveniência. Existem pessoas conterrâneas morando naquele país, que sim, vivem de acordo com as regras do país. Adivinha pra quem sobra quando você vai lá e apronta coisinhas que acha normal na sua terra? Pois é. Pensa um pouco.

E talvez seja exatamente isso que falta a esse turista: não dinheiro, não passaporte, não coragem de embarcar. Falta a coisa mais simples e mais rara de todas — educação no sentido mais profundo da palavra. Aquela que ensina que estar em outro país não faz de ninguém mais importante. Só faz de você visitante. Você está na casa de outro.

E visitante, como qualquer pessoa minimamente civilizada sabe, entra, olha, aprende e respeita.

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